Casa Mário de Andrade

"Saí desta morada que se chama O Coração Perdido e de repente não existi mais".


Mário de Andrade mudou-se para a casa da rua Lopes Chaves em 1921. Sua mãe, já viúva, comprou o sobrado construído por Oscar Americano após vender a casa da família no largo do Paiçandu. A construção abrigava sob o mesmo teto três residências familiares, com uma única infraestrutura.


A primeira residência - na rua Lopes Chaves, 108, hoje 546 - D. Maria Luiza reservou para si, com a irmã, Ana Francisca, a tia Nhanhã, madrinha do escritor, e a filha, Maria de Lourdes. A do meio deu ao filho Carlos e a terceira estava destinada a Mário de Andrade, que para aí se mudaria quando se casasse, o que nunca aconteceu.


Mário era muito ligado na família – mãe, tia e irmã –, com quem vivia na casa da Lopes Chaves. A forte personalidade dele impôs ao ambiente uma convivência harmoniosa, não isenta de contradições, entre um lar sóbrio de classe-média e a residência de um intelectual ambicioso.


A vida em família era compartilhada. As casas geminadas da mãe e de Carlos, o filho mais velho, não tinham muro nos fundos, o quintal era comum. As refeições eram feitas na casa de Mário, cuja cozinha era disputada pela mãe, tia e Bastiana, a doméstica que se integrou à família. Durante um decênio a casa de Mário hospedou três jovens primos, que vieram estudar na capital – Carlos Eduardo, Maria e Gilda. Formavam uma família grande, unida, festeira, amante dos doces.


Inspirado nos móveis de Bruno Paul, que conheceu numa revista alemã de arte e decoração, desenhou, ele mesmo, e mandou executar no Liceu de Artes e Ofícios, em madeira de lei, os móveis de seu estúdio.


Agiu igualmente com relação às estantes necessárias para abrigar a sua enorme “livraria”. Estantes sólidas, de imbuia, que apresentavam proteção de vidro nas prateleiras, para evitar a exposição dos livros. À medida que a biblioteca se expandia naturalmente, as paredes iam sendo tomadas pelas estantes, que acabaram por se impor na casa toda. Como os livros se distribuíssem em seis salas, designadas pelas letras do alfabeto, Mário criou um sistema de catalogação que possibilitava a sua incorporação permanente.


Outra vertente incontornável da personalidade de Mário de Andrade foi a de colecionador de obras de arte – desenho, gravura, pintura –, de partituras, de discos, de imagens sacras, de arte popular. Apesar dos meios modestos de que dispunha, provenientes de seu trabalho de professor de música, jornalista e escritor, Mário acumulou acervo considerável e valioso.


Para Gilda de Mello e Souza, o “colecionador” era o traço marcante do escritor múltiplo. Ele tinha compulsão em vestir o ambiente neutro da casa de elementos estéticos, antropológicos, históricos, literários com os quais se identificava e que de certo modo constituíam o seu caráter. São “testemunhos-lembranças” de um passado remoto ou recente, que agora repousam na “calma sapientíssima” do estúdio. Está ali, bem protegido, o mundo de que necessita: dócil, ordenado, ao alcance da mão e do olhar.

A casa de Mário de Andrade era, portanto, mais que a edificação despretensiosa da rua Lopes Chaves, a sua coleção e a sua biblioteca espalhadas em toda a parte. Eis o motivo que levou os principais colaboradores dele a pretender preservar intacto o ambiente da casa, após a morte do escritor.


Antonio Candido, Luiz Saia e Oneyda Alvarenga convenceram a família a não executar as determinações da carta-testamento que Mário deixara com o irmão pouco antes de se submeter a uma operação, em março de 1944. Nesse documento, ele deliberadamente dissolvia a sua coleção / biblioteca.


Após a morte súbita do escritor em 1945, o grupo ensaiou criar a Fundação Casa de Mário de Andrade, entidade que preservaria unidos o edifício e a sua valiosa coleção. Para isso, urgia manter indissolúvel a coleção de arte, livros e móveis. Um movimento articulado dos inúmeros amigos e admiradores de Mário de Andrade fez chegar ao SPHAN – Serviço do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional a solicitação de tombar o “conjunto de obras de arte, manuscritos e livros do espólio”. O tombamento federal saiu em 1946, para surpresa geral, em vista do prazo recorde em que foi formalizado. No entanto, o projeto da Casa de Mário de Andrade gorou. A bandeira foi usada pelos políticos como retórica, enquanto o cadáver do morto ilustre ainda esfriava. Em seguida, abandonada.


A coleção tombada permaneceu na casa por mais de vinte anos, como num museu, zelosamente guardada pela família de Mário até 1968, quando se efetivou a aquisição do acervo pelo Governo do Estado/Universidade de São Paulo e a transferência, em agosto desse ano, de móveis, livros, gravuras, pinturas, esculturas, objetos de arte popular, partituras para o Instituto de Estudos Brasileiros. Pouco antes da mudança, o IEB contratou a filmagem da casa, executada por Thomaz Farkas, como registro silencioso de um universo que se desfazia. Essas imagens foram editadas para a exposição “Morada do Coração Perdido”, com o título Felicidade lopeschávica.


Desprovida de seu conteúdo, a casa de Mário de Andrade tornou-se um fantasma em busca de nova configuração que lhe restituísse a energia e a vibração dos tempos antigos, em que vivia seu insubstituível morador. Mário de Andrade fizera de sua casa um “museu” vivo, a partir de uma coleção singular.


Em 1975, concluía-se o processo de tombamento da casa por iniciativa do Condephaat. Sem qualidade arquitetônica visível, reconhecia-se seu valor histórico e simbólico. 


Em 2013, como prova de que o assunto não esmoreceu de todo, Luiz Bargmann, diretor do Laboratório Audiovisual da FAU – Faculdade de Arquitetura e Urbanismo da USP, concluiu o documentário “A Casa do Mário”, que passou a circular nos festivais. 


O projeto de revalorização da casa de Mário de Andrade, iniciado com a exposição permanente “Morada do Coração Perdido”, só terá sucesso se conseguir de alguma forma recuperar esse sentimento de adesão ao escritor, pela imantação dos espaços em que viveu, que estiveram durante muito tempo sequestrados de qualquer carga simbólica ou histórica. E se lograr reintroduzir a casa da rua Lopes Chaves no itinerário cultural da cidade.


A Casa de Mário de Andrade foi reaberta ao público em 2015, no 70º aniversário de morte de escritor, com a inauguração da exposição de longa duração “A Morada do Coração Perdido”.


Em 2018, a antiga residência do escritor torna-se formalmente um museu da Secretaria da Cultura, em decorrência do processo de musealização que se encontra em desenvolvimento. A Casa passa a integrar a Rede de Museus-Casas Literários de São Paulo, com uma proposta fundamentada no perfil multifacetado de Mário de Andrade – “eu sou trezentos, trezentos e cinquenta” –, que atuou em diversos segmentos da arte e da cultura, bem como em suas pesquisas relativas a nossas raízes culturais e tradições populares.


Assim, além da exposição “A Morada do Coração Perdido” – que inclui objetos pessoais de Mário, móveis originais da Casa, textos, fotos e vídeos –, o público poderá visitar exposições de curta duração ou participar de atividades de formação e difusão cultural que contemplam os focos de atuação de seu patrono: Biblioteca do Mário: sobre literatura e poesia; Discoteca do Mário: relacionadas a música e sua história, objetos de pesquisa do também pianista e compositor; Pinacoteca do Mário: focada na relação da Mário com as artes plásticas brasileiras; Cinemateca do Mário: voltada à atuação do escritor como crítico de cinema; Teatro do Mário: ligada à produção teatral, particularmente de adaptações dramáticas de obras de Mário de Andrade.


O Museu Casa Mário de Andrade integra a Rede de Museus-Casas Literários de São Paulo da Secretaria da Cultura.


Contato

Telefone para contato: (11) 36665803

Email: casamariodeandrade@casamariodeandrade.org.br

Endereço

Rua Lopes Chaves, 546, Barra Funda
São Paulo, SP (região RM de São Paulo) (Polo SISEM-SP 6)
CEP 01154-010

Horários de abertura ao público